O que você prefere o peso ou a leveza?

Postado por O incognoscível segunda-feira, 6 de julho de 2009

Relendo pela milésima vez a Insustentável Leveza do Ser, volto a citar Kundera. Logo no começo Milan discute a diferença entre o peso e a leveza, apontando que essa dualidade é a mais contraditória e ambígua de todas as contradições. (Enquanto escrevo travo os dentes. Acho que estou começando a ter bruxismo).

Em suma, a aparente contradição se justifica pelo fato do peso, que representa o fardo, o sacrifício físico, é o que conecta o ser humano à terra, ao real, às vicissitudes, e consequentemente às realizações vitais.Já a leveza, é a ausência do fardo, a liberdade, a capacidade de volitar, de ser imaterial, e consequentemente as coisas que o homem produz perde a importância. Existir ou não existir não faz diferença.

E quem quer nunca ter existo? Pior do que nunca ter existido é não ser notado. Não queremos a leveza. Como diria Michael: Ninguém quer ser imortal.

Me lembro de outro livro, Admirável Mundo Novo, em que O Selvagem reclama o direito de sentir, me lembro vagamente dessa estória, não posso citar com detalhes. Entretanto, me recordo bem que ele recusa a droga utilizada por todos nessa distopia, a soma. O Selvagem exige o feio, o sofrimento, a dor, o escroto, o imperfeito. Acho que agora entendo melhor as pessoas e, principalmente, essa juventude.

A gente já assistiu tudo: o belo, a guerra, a luta, a omissão, hippies, comunas, ditadores, punks, lambada, geeks, a busca pela leveza, o descaso pelo peso. Todas as buscas no afã de se fazer mais feliz.

Encontramos, entretanto, no peso a sustentabilidade da nossa condição. Só abraçando o peso,o kitsch, o sujo, o marginal que se consegue ser humano, que se consegue uma felicidade física.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ou seria no Livro dos Espíritos, não me lembro, em um dos dois, existe um capitulo que chama: A felicidade não é desse mundo (se não me engano isso está na Bíblia, acho até que foi Jesus quem disse, enfim). Pode até ser, mas quem quer ser feliz aqui mesmo? Eu quero o fardo, quero o kistch. Porque essa felicidade que oferecem e que andam buscando é mais leve que eu e pode se perder aí, volitando no ar.


P.S: Dá pra não amar o Kundera?

Gabriela Rosa

4 comentários
  1. Marcos Said,

    Irmã... muito bacana o post!
    To começando a me interessar por esse tal de Kundera hein.

    Posted on 06/07/2009 15:17

     
  2. Terei de ler mais umas 5 vezes pois é muito complexo para mim, mais de qualquer forma eu gostei, entendi algumas partes como a das pessoas e da felcidade! muito bom dona Rosa.

    Posted on 06/07/2009 21:08

     
  3. Pedro Thiago Said,

    nossa, to surpreso. Bom texto e comparaçoes.
    entendo por leveza a aspiação do homem (e mulher) ao espiritual.
    nos xirés do candomblé é possível detectar esta separação propostapor Kundera. O fardo e o metafísico dividem o chão do terreiro, seria o autor também do batuque...

    Posted on 18/07/2009 12:37

     
  4. Tens razão, o peso não é a promessa, não é a esperança, não é a redenção. O peso não é insuportável quando obtemos a felicidade.
    A felicidade real, momentânea e finita.
    O fardo sim, pode ser mais ou menos pesado.
    Se excedermos no volume, na quantidade, na forma, na performance. O fardo será preterido. Mesmo assim o peso poderá ser aliviado.
    A leveza pura, que transcende o bem e o mal. que salva e dignifica. Concomitantemente poderá ser um peso, poderá ser um fardo.
    Vale quanto pesa a sua vontade, o seu interesse, a sua ação ou omissão. A sua leveza em trilhar a sua rota, transporá o mais pesados dos fardos.
    Isto porque tudo é relativo.

    Posted on 27/11/2009 08:01

     

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